Juls voltou a si depois de algumas horas. A lembrança daquela dor cortante ainda ardia em sua mente. Apesar de fisicamente não sentir nada na sua perna, o seu cérebro latejava como se ainda não se acostumasse a calmaria. E racionalizou suas opções. “Definitivamente não era um sonho ou alucinação, era real demais” --- pensou. As criaturas vinham a noite, foi assim por duas vezes e por isso acreditou estar seguro por enquanto. Tentou negociar consigo mesmo levantar da cama, e seguir com o dia mas era difícil se convencer. Seu ninho trazia uma falsa sensação de proteção, algo que foi mudando ao decorrer da sua linha de raciocínio. Levantou com pesar, pegou o frasco com os últimos comprimidos e leu na embalagem “Dr. Eliot Rutherford - hospital San Andreas”, e decidiu confrontar o estranho médico.
Foi na estação e pegou o metrô que levava ao tal hospital. Segurando nas alças de segurança, não conseguia evitar lembrar daquela sensação molhada. Os dentes da serra grudando em seus ligamentos, nas fibras viscosas, ralando; penetrando; perfurando os centímetros até o interior de sua perna. Sentiu vômito subir até a garganta, e o engoliu de volta. Não conseguia pôr pra fora mais nada, perder mais nada, por que o vômito era seu, assim como sua perna fora.
Chegou ao hospital, um lugar estranho: “branco demais, limpo demais” --- pensou. Perguntou pelo médico na recepção. Informaram que ele estava na cafeteria do ambulatório. Desceu uma longa rampa que dava acesso a outro prédio igualmente esquisito, e o avistou sentado numa mesa com um cachorro quente na mão. Ele olhava para uma máquina de café parada, desligada. Por um momento Julierme também o observou, parado, desligado. Seus lábios se moviam, mas nenhum som saía, era como se ele estivesse conversando com alguém, aos sussurros, mas na sua frente ou do seu lado não havia ninguém. Do que eles falavam? Será que o médico sabia o que aquelas coisas estavam fazendo com ele? Não suportando mais o peso das dúvidas que o assolavam, se dirigiu àquela mesa e interrompeu a “conversa”.
Dessa vez à luz do dia Julierme pôde perceber melhor à estranheza do doutor: a pele do médico era muito porosa, como se estivesse sempre à beira do suor. Seu corpo tremia estaticamente, de uma forma quase imperceptível. Apenas um leve instinto trazia Juls àquela percepção. O movimento corpulento da sua respiração era asqueroso, a banha por baixo do jaleco parecia disforme, com ângulos que turvavam a visão do fisiculturista. E o cheiro... o cheiro era terra molhada. Era como um arrepio nostálgico, um alarme sensitivo, um aviso silencioso.
Juls questionou sobre os remédios, e o médico confirmou que eram sedativos poderosos. Ele não queria perguntar mais, precisava saber. Mutilavam-se dentro dele, a curiosidade mórbida, e o medo vivissectado. Ele quis saber sobre o que aconteceu enquanto ele dormia: “Quando eu tinha apenas seis anos, de tempos em tempos na lavoura, as frutas frescas eram colhidas antes da data de venda, pois amadureciam mais rápido e por isso ficavam sem comprador. Meus avós eram donos de um pequeno sítio, plantavam de tudo. Mas sua especialidade era o tomate. Meu avô desde criança amava plantar, e cuidar da terra faça sol ou chuva. Ele sabia mais sobre tomates do que sobre mim. E minha avó também o ajudava, capinando ou cuidando das outras hortas. De vez em quando eles me davam para comer, um tomate que parecia meio podre e eu nunca entendia o porque. Questionava por que precisava comer aquele negócio asqueroso? a fruta era viscosa, mole e gosmenta. Uma vez eu quase vomitei! Mas meus avós insistiam, e me ensinavam que “o cheiro é a única coisa em que podemos confiar”. E realmente, não tinha cheiro de podre, mas também um aroma natural. Era como terra molhada; úmida. Eles me ensinaram que este era o cheiro anterior a putrefação. Que estava tudo bem se comer hoje. Pois não poderia passar mais nem um dia sem colher a fruta.
Meus avós colhiam, e nós comíamos aquele tomate velho e fedorento. Não servia para venda devido ao preconceito dos comerciantes que nada entendem de lavoura. Mas não importa quantas vezes minha avó lavasse. Aquele maldito fedor não saía da fruta. Comíamos por obrigação, no campo não se pode desperdiçar. Com o tempo, eu me acostumei com aquilo, mas no fundo ainda tinha impressão de estar comendo um pouco de terra úmida, e por alguma razão eu sabia que era uma terra anormal, diferente da que tinha na fazenda.
Quando fiz nove anos, eles morreram num acidente na estrada. Eu estava no carro também, mas não morri por alguma razão. Eles foram enterrados dias depois, numa só cova, como pediram no testamento, e no enterro chovia muito, e eu fui o último a sair. Me deixaram só em frente ao túmulo por alguns instantes, enquanto minha tia buscava o carro. Por algum acaso, vi semi enterrado próximo da terra remexida, dos meus avós algo vermelho. Não sei como tive a coragem, mas meti a mão e puxei. Era um tomate. Ele era igual aos tomates semi apodrecidos que meus avós me davam. Ninguém estava ao meu redor; ninguém me vigiava; e chorando experimentei de forma nostálgica como nos velhos tempos. Cru mesmo, daquele jeito asqueroso.
Senti o mesmo sabor de terra molhada. E percebi que agora me lembrava morte, e que me remetia à cova. Cuspi loucamente, e alucinado voltei correndo para perto da minha tia que ficou assustada mas nunca soube o que aconteceu.
Eu nunca mais comi um tomate na vida.
Acho que algo parecido acontecendo com você Julierme. Não adianta me perguntar quem são eles, ou o que querem. Apenas sei que você não pode dizer não, ou fugir agora. Pois eu já começo a sentir um fraco; meio distante; mas inconfundível cheiro de terra úmida vindo de você.”
Julierme não conseguiu mais argumentar depois dessa história. Estava amedrontado, queria e não queria saber mais. Precisava pensar e não conseguia. Tentou parar o doutor quando este foi chamado para cuidar de um paciente, mas sem sucesso.
Eles se despediram, e Juls sentiu um gosto amargo; asqueroso. Lembrou da semelhança da história e do cheiro que sentira quando foi “levado” durante o sono. Nunca antes Juls quis desistir de algo que fizesse seu corpo melhorar, mas agora era diferente, agora estava perto do limiar que sua mente aguentava. Já sentia as paredes de vidro dentro de seu cérebro rachando. Tremia sem se mover, esperava o inevitável. Sentiu um medo surpreendente, como naquele dia, o dia da dívida! o dia que seu tio Lou o “abandonou”. Ele sentiu o sabor ficando mais e mais forte, que sabor era esse? Era amargo, arenoso e úmido.